Tive um corvo. Alto, seco, com seus negros e profundos olhos me fitando enquanto, pousado sobre a lareira, se aquecia. Era Maio quando me dei com ele em casa, e perto de Setembro, seus olhos não me fitavam mais. Minha cicatriz o calou. Não mais abria o bico dourado, ou pousava na lareira para me ver.

Outubro nascia e, naquela noite, sem saber por qual motivo, me deparei observando-o dormir, e reparei que uma de suas asas se elevava anormalmente, pulsando num compasso conhecido. Cuidadoso, levantei a asa e lá descobri um pássaro. Era menor, mais magro, e mais belo. Não o poderia descrever, e nem ousaria, pois nunca antes fora visto, não por meus olhos. Encantado, pousei o pássaro na lareira, e ele se aninhou, se aqueceu, e me fitou. Seus olhos eram mais vívidos e, por trás daqueles vidros, vi minha vida futura (com ele). Aos poucos, senti minha espinha mudar de forma, meus órgãos se reorganizarem numa dança frenética.

Não reparei no corvo, e me deixei envolver naquele místico momento do nosso contato (meu e do pássaro).

E, pois, a história só começava.

E, pois, ainda não sei seu fim.

No Jardim de Pirancantos

Deliberadamente, entrei no jardim de piracantos. Os frutos rubros me atraíram, com tamanha maestria que já não era mais eu. Meti-me por entre os arbustos, maravilhado, esperando todas aquelas contas recolher, pousar sobre meu peito, e deitar-me no chão, saboreando o bálsamo que de lá emanava. No jardim, pois, entrei, e após passos largos, sóis ante sóis, senti. Por entre os pelos de minha perna escorria um denso rubro. Também nos braços, no pescoço e no peito. Eis, pois, o pomo em forma de polpa, se deleitando de minha pele - pensei. Ao provar, porém, de tal fluído, me deparei com o gosto do ferro, e meu sabor ácido, amargo, nojento, que agora provava em minha boca. Os acúleos cortantes! Milhares, milhões! Aqueles que foram abrigados pelos frutos atraentes, me penetravam agora a pele, rasgando-a, ferindo-a. Não podia escapar! Estava cercado daqueles cortantes, me fitando com tamanho ódio! Padeci lá mesmo, quando o outono chegou. O sangue pisado, os espinhos contentes, os frutos caídos. O amor acabou.

pelo vidro da janela
eu vejo ele sorrindo
pelo vidro da janela
eu vejo o mundo vindo
pelo vidro da janela
eu vejo ele partindo
pelo vidro da janela
eu vejo o mundo indo

e da janela nunca saí

(Source: darksilenceinsuburbia)

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